por FUGA » sábado mar 17, 2007 22:06
O mundo esplendoroso do Drum’and’bass
O Jungle é o filho da mistura do ultra-novo (tecnologia) e o muito antigo (fazer ritmos complexos, porém dançáveis. Mas, longe dessas teorias mais heterodoxas, podemos traçar suas origens nos anos 70, com as festas de break no Bronx, feitas por Kool Herc. Criando uma cultura de isolamento e manipulação de breakbeats, Kool Herc criou o caminho que daria origem ao Hip-hop e ao seu primo bastardo, o Jungle.
Quando em meados dos anos 80 o Acid-house estoirou em Inglaterra, existia já uma cena muito ecléctica, diferente da dos Estados Unidos. Quem nasceu ouvindo Afrika Bambaataa e Jah Shaka, pegaria na house music e levá-la-ia a novos patamares, misturando essas influências de Bambaataa até ao dub de Shaka.
As primeiras faixas de House da Inglaterra ficaram conhecidas como "techno", o que é comum aos novos estilos de electrónica, que até então se designava "Bleep". Muito influenciada pelas sonoridades reggae do norte, faixas super minimalistas como 'The Theme' de Unique 3 poderiam ser indicadas como precursoras do darkcore.
Mais ao sul, Shut Up And Dance experimentava com o recente 'Hip-house' e apresentava sons que hoje são designados "Proto-jungle". O sample de Suzanne Vega em '£10 To Get In' (de 1989) antecipou milhares de faixas do hardcore, enquanto 'Splifhead' de Ragga Twins (de 1990) antecipou em 3 anos o "rude-bwoy jungle".
Duas outras influências foram cruciais nos próximos passos do desenvolvimento: o acesso a samples baratos e programas de estúdio caseiro, a facilidade do processo e os estranhos sons que caracterizaram o Hardcore. A segunda foi a "bruteza" do Techno belga dos anos 90, em faixas como 'Mentasm' de Joey Beltram. A estridência metálica de 'Mentasm' ainda ecoa no drum'n'bass dos dias de hoje...
A mistura de breakbeats acelerados, linhas de baixos vibrantes, aqueles riffs belgas e pianos de faixas de house italianas, o Hardcore foi a primeira encarnação do Jungle. Como por exemplo 'Oh So Nice' de Cosmo & Dibs e 'Space Cakes' de Kaotic Chemistry (lançadas pela Moving Shadow em '91 e '92).
No final de 1992, o então Hardcore começou a ficar popular, o novo som do 'darkside' começou a expandir-se. Muitos se alienaram desse desenvolvimento, como ravers dopados com ácidos e ecstasy, deslumbrados com o 'happy hardcore' vindo das fileiras do House.
Enquanto isso, músicas como 'Terminator' (da editora Metalheadz) levou o som darkside a novos nÃveis de intensidade e abriu o caminho para o Jungle.
Surgia assim o Jungle no inÃcio dos anos noventa (finais de 1992 e inÃcios de 1993) como uma evolução do hardcore breakbeat. A mistura do Reggae com batidas aceleradas do Hip hop e timbres electrónicos produziu uma sonoridade completamente caótica e radical. Tudo começou nos guetos londrinos, como qualquer estilo musical, pois são eles os embriões destas transformações.
Os clubes e festas como Labirinth e Helter Skelter superlotavam e levavam as pessoas ao delÃrio! O maior problema que este movimento enfrentou nessa época foi o consumo de crack e a presença dos bad boys, mas esse problema acabou quando, no final de 1993, os promotores das festas e os Dj's mudaram o nome de Jungle para Drum'n'bass, pois acreditavam que a designação jungle era muito periférica. O Jungle (Drum'n'bass) sai finalmente dos guetos tornando-se acessÃvel ás massas populares. Foi a época do hit «Inner city life», de Goldie, que conferiu mais força ao estilo.
Com o passar dos anos 90, as técnicas de manipulação dos breakbeats, cortando, reprocessando, colocando diversos efeitos, levou ao aparecimento da "breakbeat science".
Os B-boys ingleses sempre tiveram mais interesse pelo lado experimental do Hip-hop do que pela polÃtica, como é apanágio dos americanos. Agora, produtores "literatos" em "drums" [baterias], como Dj Hype, Aphrodite e Danny Breaks, fazem faixas que exemplificam o que Jonh Cage disse: que a "música de percursão é revolução".
1994 foi o ano da popularização. Depois do ostracismo, os media acordaram finalmente para os "rolling beats". Inicialmente mais voltado para o ragga e com o exagero nas notÃcias de armas e uso de crack nas festas de jungle, artistas como Uk Apache e M-Beat foram catapultados para o "estrelato". Entretanto, os breaks-and-bass começavam a tomar nova forma...
Produtores que se definiam como o oposto do darkside, como Omni Trio e Foul Play, começaram a fazer músicas mais alegres do que as trevas que reinavam... Em 1995, esse contingente anti-ragga e anti-dark dominou a cena. Centrado em Fabio e Ltj Bukem e no seu clube Speed, esse sector tinha mais origem nas melodias do techno de Detroit do que no próprio jungle. Com isso, o jungle ganhou um aspecto mais cool e "maturidade urbana", como se dizia, e a indústria que tanto o desprezou começou a curvar-se perante esses seus talentos. Pete Tong, que 2 anos antes achava o hardcore chato e sem inovação, agora estava aos pés desse novo som, juntamente com outros notáveis como Gilles Peterson.
Mas para cada faixa "suave" de Alex Reece ou de Wax Doctor, sempre existiram outros produtores como um Dillinja ou Dom & Roland. Surgiu o som 'jump-up', que permanecia mais fiel às suas origens. Entretanto, "terroristas" do bass como o próprio Dillinja e Digital intensificaram as frequências mais baixas e produziram um tipo mais militarizado e "violento" do dub.
O final dos anos 90 caracterizaram-se pelo regresso ao darkside. Centrado no selo No U-Turn de Nico e Ed Rush, a nova escola de produtores de 'tech-step' reagia contra o jazz-jungle. Mas, como sempre, continuam a existir aqueles que fogem ao género: novos produtores como Calibre, Fellowship, Carlito & Addiction, Blue Sonix... que mais uma vez apontam para a "luz" e não para as "trevas".
É importante lembrar que o Drum'n'bass é um segmento totalmente criado e manipulado por Dj's ingleses, cuja fórmula consiste em aguentar um tema pelo tempo que quiserem e também porque dispõem de técnicas de gravações e mixagens que aguçam a curiosidade de produtores do mundo inteiro, com os graves absurdamente bem resolvidos, distorções e os fantásticos dubplates (um acetato prensado por unidade). Só para se ter uma ideia, faz-se uma música, leva-se a um estúdio (de preferência onde os top Dj's trabalhem as suas produções e passem para os tão sonhados dubplates) e o processo é o seguinte: leva-se o Dat (Digital Audio Tape) Cd ou Md e a gravação é transferida para uma prensa de vinil onde será confeccionado o dubplate. O disco deverá ser tocado por tempo limitado, pois, como se trata de um acetato (processo anterior ao vinil) tem essa desvantagem. Mas há um glamour do acetato entre os Dj's de toda a cena actual.
Depois ainda há os estilos que falta enumerar e descrever, há a presença dos Mc’s, um movimento internacional e nacional que torna o Drum’n’bass como se escreve na lingua mãe do género «The next bing thing».
por NM